Short viajou na maionese. Karpov obteve meio ponto!  (Parte 1).

Vez ou outra é preciso se justificar perante os leitores quanto ao uso de um termo ou outro como também peço as devidas desculpas por um ou outro erro/escorregão no vernáculo pátrio, isso porque para divulgar bem o xadrez é preciso fazer de forma correta e clara e é preciso divulgar sempre o xadrez.

O fortíssimo grande mestre inglês, Nigel Short, desafiante do Kasparov no Campeonato Mundial de Xadrez, pela Professional Chess Association (PCA), em 1993, costuma ser irreverente nos múltiplos textos que escreve sobre o xadrez e fatos pitorescos correlatos.

Chess Nigel Short v Gary Kasparov in 1993

Short tem uma coluna na Revista New in Chess. Ultimamente escreveu um texto bastante polêmico cujo tema é aproximadamente esse: “uma possível superioridade dos homens em relação às mulheres no xadrez. ”

Para a presente matéria trago aqui alguns comentários, sob uma outra ótica, em relação a um texto que o Short escreveu para o excelente site da Chessbase há um tempo atrás (não recordo quando).

A ideia central do texto de Short falava que a regra do empate por afogamento devia ser abolida do xadrez. Não lembro bem dos argumentos que fundamentaram o texto, mas um deles era que seria injusto um jogador com vantagem avassaladora tanto posicional quanto material obter apenas um empate por ocasião de um afogamento.

Como exemplo, Short citou uma partida disputada no Campeonato Mundial de 1978, entre Korchnoi e Karpov cujo resultado foi empate.

karpov-korhcnoi

Posso estar enganado, com referência às regras do jogo de xadrez em si, poucas mudanças ocorreram ao longo do tempo, pelo menos não tenho conhecimento de nenhuma (não usei o google). As regras de arbitragem vez ou outra mudam e fogem ao escopo do presente texto.

É muito bom e prazeroso ver uma partida, por exemplo, entre Alekine e Capablanca nos anos 1920 e perceber que as regras daquela partida são exatamente as mesmas das partidas atuais: roque pequeno e grande, tomada en-passant, movimento das peças, quantidade de casas do tabuleiro, empate por afogamento, etc.

Mudar uma arte milenar através de argumentos frágeis, inflamados por um sentimento ou outro, não seria bom para o xadrez tampouco para os jogadores, principalmente se tal mudança é baseada em um sentimento de justiça, ou que não seria justo um jogador ou uma jogadora obter apenas um empate numa posição de afogamento em que tinha grande vantagem material/posicional.

Sou totalmente a favor da manutenção das regras do xadrez.

Não sei exatamente em que ponto da partida o Short apresentou um diagrama.

De todo o modo segue o diagrama abaixo que ilustra bem as ideias mais a frente expostas.

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Observem, tal qual vocês perceberão na sequência da partida, bem como nas análises, que Karpov jogou 1…Rg5 e na minha opinião é um lance magistral.

Magistral porque Karpov já devia ter estudado este tipo de final, magistral porque Karpov estava jogando uma partida pelo Campeonato Mundial, magistral porque ele jamais imaginava que ia enfrentar uma posição dessas, magistral porque ele tinha que ter estudado a fundo, em sua preparação, as aberturas que porventura Korchinoi jogaria.

Voltando um pouco às ideias de Short sobre o banimento do afogamento no xadrez, ressalto que a posição ocorrida acima entre os dois grandes jogadores, em nenhuma hipótese, retira o mérito do estupendo Vitor Korchinoi ( Vítor – o terrível), apenas ele tinha grande vantagem material em uma dada posição de finais e dita posição é considerada empate pela teoria.

Se em vez de 1…Rg5, Karpov tivesse jogado, 1…Re4, o que poderia ocorrer? Provavelmente perderia a partida! Aprofundemos…

Chama-se a atenção que com o Rei em e4 as negras sairiam da zona de empate magistralmente explicada pelo notável Yuri Averback no livro Comprehensive Chess Endings, Bishop Endings, Knight Endings, Volume 1.

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Vejamos o que o autor fala, com adaptações, a respeito da zona de empate nas páginas 23/24 do citado livro:

Rauzer deduziu a regra da zona de empate, que facilita a avaliação da posição: as brancas sempre vencem se o rei preto é impedido de transitar pelo setor do tabuleiro limitado pelas casas a8, h8, h6, f4, e5, d4 e a7.

Se o rei preto está dentro da zona de empate, não é garantia para o jogador das pretas empatar a partida, desde que, o rei branco esteja perto do peão preto, e o rei preto não conseguir alcançar a casa a8 a tempo.

Vejamos as posições básicas deste final:

Posição de empate não importando quem jogue, nem em que posição se encontram o rei e bispo brancos.

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Nesse diagrama observa-se que o rei preto alcançou a casa a8 e a posição é inexoravelmente empate.

Posição ganhadora, não importando quem jogue.

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Observem que o peão preto de a4 já foi capturado e o Rei branco num trabalho conjunto com o bispo branco impedem a aproximação do rei preto da casa de coroação do peão a.

Observem com atenção esta próxima posição.

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Esta posição é crucial, extremamente fundamental para ajudar na análise de posições similares. Aqui trago um recado para que o leitor/leitora não se preocupe em decorar esta posição ou similares. O estudo de tais posições já ajuda bastante, pois irradia o cérebro de ideias e ilumina o campo da intuição de cada jogador, de cada jogadora. Eu diria que os grandes mestres sabem de cabeça muitas posições de finais, mas para os amantes do xadrez em geral, o estudo contumaz dos finais de partidas aumenta o volume de jogo, melhora a visão tática, melhora o jogo.

Nesse diagrama se as brancas jogam, a vitória é certa, se as negras jogam, o empate é certo e dar-se-á por afogamento – que me perdoe o Short!.

As brancas jogando 1 Rb5, as negras replicam Rc8 com intuito de jogar Rb7, no entanto as brancas têm três lances ganhadores 2 Rc6 que resulta em um dos diagramas acima citados ou Rb6 ou Ra6.

Se as negras jogam o simples Rc8 (ou Rc6) empata.

Vejamos, finalmente, a sequência da partida com as análises tanto hipotéticas quanto as tiradas do citado livro do Averbach.

CLIQUE AQUI!

O intuito das análises hipotéticas é chegar ao diagrama 65, página 21, do livro do Averbach.

Sem título

Neste diagrama as brancas jogam (será matéria de outra postagem as pretas jogando).

 

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1 comentário Adicione o seu

  1. “Seguindo o conselho de Capablanca, que dizia “o xadrez se aprende começando pelos finais”, com muita razão, pois o objetivo do jogo é dar xeque-mate, nas escolas [na URSS] se enfatizava os finais com as crianças para manejar os vários tipos de finais de jogo, para aprender a autonomia das peças e sua técnica (coisa que levou ao termo jornalístico “a técnica soviética se impõe nos finais”)”

    Ver: http://xadrezparaler.blogspot.com.br/2016/01/o-xadrez-na-uniao-sovietica.html

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