Os bastidores da partida Donald Byrne e Robert Fischer, 1956

A presente matéria trata, no essencial, do que ocorreu, por trás da cortina, na partida Donald Byrne versus Robert Fischer, digo isso, porque do estudo da partida abaixo descrita, e que está em vários livros mundo afora, não dá pro leitor perceber as nuances e os fatos acontecidos nessa importante batalha “Caissiana”.

As fontes de pesquisa em que basearão o presente texto são: Endgame, de Frank Brady, páginas 60 a 65 (este livro trata da vida de Fischer, jogando luzes fortes na ascensão e queda deste insuspeitável CAMPEÂO MUNDIAL); The Games of Robert Fischer, de Robert G. Wade and Kevin J. O’Connell, páginas 110 a 112; Sacrifice and Initiative in Chess – Seize the Moment to Get the Advantage, de Ivan Sokolov, páginas 56 a 57.

A partida foi jogada no Marshall Chess Club, construído em 1832 por um grupo de gente muito rica, incluindo os Roosevelts. O Frank J. Marshall, Campeão Americano por 27 anos, era adorado nesse Clube de Xadrez principalmente pelos patronos referidos.

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Marshall Chess Club

Renomados mestres do passado visitaram e participaram de eventos no Marshall Chess Club, destacando-se o admirável cubano José Raúl Capablanca cuja última exibição ocorreu naquele local.

Uma curiosidade: o Clube tinha uma aura de grande decoro, por outras palavras, era revestido de uma atmosfera de grande decoro, a julgar pelos patrocinadores, pelos renomados jogadores do passado que por lá passaram. Pois bem, a viúva de Frank Marshall, Caroline Marshall, gerente por muito tempo do Clube, considerava uma afronta a indumentária habitual usada por Fischer a qual incluía – camisas casuais tipo pólo, malha, etc (que não seguem regras de uniforme ou etiqueta), calças riscadas, tênis. Caroline alertava por vezes a Fischer que seu indiscreto modo de se vestir não era adequado para o local, chegando ao ponto de ameaçá-lo de entrar no recinto: Fischer, simplesmente, a ignorava.

Fischer estava no Marshall Chess Club na noite do dia 17 de outubro de 1956, pronto para jogar a oitava rodada do torneio  Rosenwald Memorial – nome oriundo do patrocinador do torneio Lessing J. Rosenwald.

Fischer foi convidado para este torneio pelo fato de ter ganho o Campeonato Juvenil Americano três meses antes. Foi a a primeira oportunidade dele jogar um importante torneio com os melhores jogadores e com “rating” mais alto dos Estados Unidos. Ao todo eram doze jogadores: Samuel Reshevsky, Arthur B. Bisguier, Arthur Feuerstein, Edmar Mednis (há bons livros escritos por ele, inclusive um de finais de torres muito bom), Sidney Bernstein, Donald Byrne, Abe Turner, Robert James Fischer, Herbert Seidman, Eliot Hearst, Max Pavey (foi um dos primeiros mestres que Fischer enfrentou em sua vida, foi numa simultânea, Pavey não deu chance e Fischer, muito novo, chorou após a partida), George Shainswit. Os membros do Clube estavam eufóricos.

Naquela noite o oponente de Fischer era o professor universitário, mestre internacional, ex-campeão Americano, e agressivo jogador, Donald Byrne.

Byrne contava com vinte e cinco anos (Fischer – 13), tinha cabelos pretos, falava e se vestia de forma elegante. Invariavelmente segurava um cigarro entre os dedos, sua mão no ar, seu cotovelo repousado na mesa, e uma pose que lhe dava um tom aristocrático.

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Donald Byrne

A mãe de Fischer, Regina (profissão enfermeira), o tinha acompanhado até o clube, tão logo a PARTIDA DO SÉCULO houvera começado, ela se dirigiu a uma enorme livraria perto (Strand Bookstore), cujas estantes tinham milhões de livros (quantidade citada por Frank Brady). Ela sabia que a partida poderia durar horas até seu retorno ao clube.

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Regina Fischer

Até a oitava rodada Fischer não havia ganho sequer 01 partida, mas colecionava três empates. Parecia que ele se tornava mais forte a cada rodada, sempre aprendendo através dos outros mestres que tinha enfrentado. Fischer havia estudado as partidas de Byrne em livros e revistas. Ele era ciente do estilo e da estratégia de seu oponente, assim, decidiu-se por um esquema diferente da abertura Grunfeld – um tanto atípico para ambos contendores.

Bobby sabia das bases da abertura Grunfeld embora não tivesse ainda se aperfeiçoado nas nuances da mesma.

Em outro momento, seria interessante o leitor conferir os comentários abaixo  com a partida em si.

A questão principal era Fischer permitir às brancas ocuparem as casas centrais, tornando as peças (brancas) um claro alvo de ataque por parte das pretas. Não era um método de estratégia clássica e levaria a uma diferente configuração e progresso do jogo. Mas Bobby teve/pegou a chance.

Pelo fato de Fischer não ter memorizado toda a sequência da abertura, ele tinha que descobrir a melhor continuação em cada vez que jogasse, assim envolveu-se no apuro de tempo logo cedo.

O nervosismo de Bobby crescia. Ele roía as unhas. Passava os dedos nos cabelos. Sentava com as pernas dobradas na cadeira, tipo em posição de meditação (não sei como ele conseguia isso…) e depois sentava de joelhos. Punha os cotovelos na mesa, repousava o queixo em uma mão e depois na outra.

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O jovem Fischer roendo as unhas

Byrne já havia derrotado em uma das rodadas precedentes Samuel Reshevsky – o jogador americano mais forte do torneio e sua habilidade não poderia ser menosprezada. Bobby não estava em pânico, mas estava nervoso (um pouco) e preocupado.

Curiosos começavam a se amontoar perto da mesa. Cada vez que Bobby tinha de se levantar para ir ao pequeno banheiro atrás do clube, praticamente lutava para conseguir caminho no meio dos observadores.

Aqui um aparte: essa palavra observadores significa kibitzers no inglês, poderíamos aqui lembrar dos famosos perus. A ação dos perus de tentar adivinhar o lance dos jogadores é aperuar (e não peruar, claro que nada impede na lingua coloquial de se usar o verbo “peruar”), e esse termo vem da literatura clássica, pode ser encontrado no Livro Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos.

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A dificuldade de Bobby vencer a aglomeração de pessoas para ir ao banheiro interferia na sua concentração. Bobby lembrava que ele escutava o movimento das peças/movimento corporal dos jogadores de uma partida em andamento mesmo se ele não estivesse em sua mesa, por outras palavras, o andamento das partidas ressoava em Bobby Fischer. Lembrava ainda que os observadores, principalmente os que estavam sentados, sentiam-se altamente insultados quando Bobby pedia para eles se deslocarem para outro local do salão ou ficarem quietos.

Fischer percebeu, também, que o calor do verão e a grande quantidade de gente tornava o salão do torneio insurpotável. Suas reclamações foram ouvidas pelos organizadores do Clube embora nada pudesse ser feito naquele torneio. No próximo verão o Marshall Chess Club já contava com ar condicionado.

Apesar do desconforto, Bobby seguiu firme na partida. Surpreendentemente, após apenas 11 lances, como um passe de mágica ele conseguiu vantagem posicional. Então, de repente, ele moveu seu cavalo para uma casa (confiram o 11. …Ca4!!) onde possivelmente passou despercebida pelo seu oponente. “O que ele está fazendo?” disse alguém para uma outra pessoa em particular. “É um erro grosseiro ou um sacrifício?” podia se ouvir do exame cuidadoso dos observadores. A estratégia ou lance espetacular de Bobby deixou os espectadores atônitos além de seu oponente: embora não profundo, era um lance agressivo,  talvez um golpe de gênio, ou até brilhante.

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11…Ca4!!

Byrne não se atreveu a tomar o cavalo (observem que ele jogou 12. Da3), conquanto ganhasse uma importante peça levaria à vitória de Bobby. O árbitro do torneio descreveu a eletricidade que a audácia de Fischer criou: um múrmurio tomou conta do salão após o lance 11. …Ca4!!, e os obervadores se avolumavam ainda mais perto da mesa em que Fischer jogava tal qual peixes no buraco do gelo (aqui imagina-se os lagos gelados e os peixes se aglomerando para respirar ou atraídos pela luz do sol, olhei alguma coisa na internet, e há pessoas especializadas em pescar nos lagos ou oceanos gelados, elas verificam onde tem mais peixes e fazem o buraco para iniciar a pesca).

Exatamente por causa do frenesi da multidão que Fischer desejaria ficar distante dela. Bobby sabia da importância do jogo. Alex Kaufman, um mestre que estudou essa partida assim se pronunciou: foi um jogo sensacional despertando o interesse de todos; foi extraordinário: o jogo e a juventude de Bobby eram algo indefensável.

Num determinado momento da partida, Fischer tinha apenas 20 minutos em seu relógio para completar os 40 lances necessários e somente havia feito 16 até então. Usando uma visão profunda, ele se deu conta de uma(s) extradordinária(s)a possibilidade(s) (11. …Ca4!!, 13. …Cc3!!, 14. …Db6!, 17. …Be6!!, 19. …Ce2!, 24. …Ta4!) que mudaria o panorama da posição e daria um novo significado para a partida. Porque ele permitiu Byrne capturar sua dama, a peça mais forte do tabuleiro? Jogar sem a dama é algo próximo (quase) do desastre podendo levar à imediata derrota. Caso Byrne capturasse a dama sua posição ficaria com menos possibilidade de atacar as forças restantes de Fischer e com menos possibilidade de proteger a própria posição? ( o curso da partida confirmou isso, pois Fischer ficou com três peças pela dama e ainda em posição de ataque).

De forma instintiva, as ideias por trás do lance 11. …Ca4!! brotaram na mente de Fischer não necessariamente de forma racional. É como se ele tivesse vendo através de uma pequeno buraco de uma lente e depois sua visão e compreensão da posição tivesse aumentado muitas vezes como se tivesse uma iluminação fluorescente bem forte. Trocando em miúdos: digamos que numa partida hipotética você intuitivamente faz um lance, claro você viu algumas sequências boas e idèias, mas não tava exatamente certo de todas as possibilidades (e Bobby não estava!) mas aí você executa o lance, e começa a ver mais idéias fantásticas relacionadas com o lance – o lance que você executou era muito bom!

Se o sacríficio de dama não fosse aceito, Bobby conjecturou: “Byrne perderia a partida (18. Be6 Db5; 19. Rg1 Ce2; 20. Rf1 Cg3; 21. Rg1 Df1!; 22. Tf1 Ce2 mate) mas se aceitasse perderia também”.  Os sussurros no salão continuavam: “Impossível! Byrne está perdendo para um garoto desconhecido de 13 anos”.

Byrne tomou a dama (18. Bb6), a partir deste momento, Fischer estava tão focado e concentrado na posição que dificilmente conseguia ouvir o murmúrio das pessoas, ele seguia resoluto fazendo bons lances, como se fosse atirando dardos venenosos e esperando as respostas (lances) de Byrne. Sua inocência no xadrez havia acabado ali, ele já conseguia ver e entender 2o ou mais lances à frente.

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18.Bb6

Apesar da rapidez com que respondia aos lances de Byrne, Fischer demonstrava pouca emoção. Permanecia sentado, plácido,  como um  pequeno Buda, impiedoso,executando os lances finais para arrematar a partida.

No lance 41, após cinco horas de jogo, seu coração batendo um pouco acelerado, Fischer levantou a torre com sua mão direita tremendo, calmamente finalizou o lance no tabuleiro dizendo “mate”! (41. …Tc2#). Byrne, amigavelmente,  levantou-se. Houve aperto de mãos, eles riram. Byrne sabia que, apesar de estar do lado errado do resultado, havia perdido uma das melhores partidas já jogada, e assim sendo, já fazia parte da história do xadrez. Algumas pessoas aplaudiram, para o desagrado dos jogadores com partida em andamento, que naquele momento não se importavam com a partida entre Byrne e Fischer. Eles tinham suas próprias partidas para se preocuparem: “silêncio! Quietos! Já é meia noite!”

Hans Kmoch, o árbitro, jogador forte e conhecido teórico internacionalmente, depois se reportou à importância da partida: “Uma obra prima, fantástica combinação vinda de um garoto de treze anos contra um formidável oponente, indo para o recorde dos prodígios no xadrez. A perfomance de Bobby deu-se com estupenda originalidade.”

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Hans Kmoch

Assim nasceu a partida do Século, nesta hora,  a mãe de Fischer já devia ter voltado da livraria e não estava ciente ainda da pérola que o filho tinha acabado de fabricar.

Vamos à partida, segue um ou outro comentário dos citados livros de Ivan Sokolov e Robert G. Wade (e Kevin J. O’Connell):

Clique Aqui para ver a partida.

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